Matheus: Filho da Pátria

15/12/2009

Por Eliete e Maria Morena

No último dia 04 de dezembro fez um ano da morte do menino Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos, morto com um tiro de fuzil na favela Baixa do Sapateiro no complexo da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. Matheus foi morto após sair para comprar pão às 7h30 da manhã na porta de  sua casa. Na tarde da última sexta feira sua mãe Gracilene, 34 anos, nascida e criada na Maré nos recebeu para uma entrevista na sede do museu da Maré onde trabalha. Leia a seguir:

SECFM  Conte-nos um pouco sobre sua vida?

Graciele – Sou nascida e criada na Maré, minha família é toda daqui, tenho mais sete filhos, uma menina de 2 anos, Débora,outra de 3 anos que é a Evelin, o Lucas de 6 anos, o Wesley tem 7 anos, a Naketi de 13 anos, a Flávia que tem 18 anos, e estava trabalhando de entregadora de panfletos no centro, mas agora está desempregada e o Carlos André de 15 anos. Todos estudam aqui mesmo na Maré, alguns no Ciep. Ministro Gustavo Capanema e os outros no Ciep. Antônio Mariano, onde Matheus estudava. Hoje só conto com a ajuda da minha mãe  e o salário que recebo de Auxiliar de Serviços Gerais daqui do museu. Ah, recebo também o bolsa família de sessenta e cinco reais.

SECFM  Pretende continuar morando na Maré?

Graciele _ Não, minha vida mudou totalmente depois da morte do Matheus, minha família é toda daqui, sempre gostei de morar aqui, mas depois do que aconteceu, não sinto mais desejo de morar aqui. Mas como não tenho condições de  me mudar por enquanto, vou levando…

SECFM  Hoje você conta com o apoio de alguma instituição?

Graciele _ Não, o único apoio que recebo, são de advogados do “Projeto Legal” que acompanham o caso. Já fiquei sabendo que ganharam dinheiro com a morte do meu filho, mas essas pessoas nunca me procuraram pra nada!

SECFM  Como está o caso hoje?

Graciele _ O processo está em andamento, já teve a primeira audiência  e fiquei sabendo que um dos policiais morreu e três estão afastados do trabalho.

SECFM  Você acredita na Justiça?

Graciele _ Acredito! Não só na do homem, mas na de Deus primeiramente.

SECFM  O que você deseja para seus filhos?

Graciele _ Desejo que eles tenham um futuro melhor, que sejam diferentes, que consigam se destacar no trabalho, nos estudos e que o desejo deles sejam realizados.

SECFM  Matheus tinha algum sonho?

Graciele _ O sonho do Matheus era comprar uma casa bem grande e um Playstation, infelizmente morreu sem realizar esse sonho… (se emociona)

Gracilene. Foto tirada em 13-12-2009

Quantos filhos da pátria mãe gentil teremos que sacrificar para que as “autoridades” acordem?!


A Fotografia como suporte de denúncia

14/12/2009

Por Eliete e Maria Morena

Fotos não são somente pessoas e lugares bonitos. Afinal, há uma enorme percepção crítica por trás delas. A fotografia reflete a essência da alma, traduzindo a tristeza que cala em cada um, o sofrimento e a esperança contidos em cada rosto, em cada espaço. É a vida humana manifestando-se.

As imagens podem multiplicar saberes adquiridos – quando fotógrafo e espectador compartilham do mesmo ponto de vista –, mas o excesso de imagens do mundo atual provoca uma falta de benevolência no olhar.

Perdem-se os detalhes, as pequenas gentilezas, cujo resultado é a ausência da sinceridade. A excessiva preocupação com a individualidade apaga o outro, esvaindo, assim, a essência da felicidade, que só é real quando compartilhada.

 

Ratão Diniz

Ratão Diniz é professor da oficina de fotografia dos bolsistas do Ciência na Rua. Morador da comunidade da Maré há 25 anos, ele acredita na capacidade que a fotografia tem de documentar e sensibilizar o olhar anestesiado da sociedade.

 

Filho de retirantes nordestinos, Ratão faz da sua própria história uma possibilidade de mudança do mundo em que vive. “Eu poderia ter me vendido e estar reproduzindo as regras do sistema”, diz o fotógrafo, que deu entrevista exclusiva para nosso blog.

 

P: O que a Maré significa para você?

R: É o meu refúgio da realidade, tenho uma identidade muito forte com este local, nunca neguei ser morador de espaços populares. Aqui eu tenho tudo: minha família, meus amigos, uma ampla rede de comércio, boa localização, me sinto completo.

 

P: Como começou sua relação com a fotografia?

R: Através das aulas de geografia no curso pré-vestibular, tive acesso às fotos de Sebastião Salgado. Ao mesmo tempo, eu era colaborador do CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), onde tive um enorme contato com o acervo fotográfico de João Roberto Ripper*. E a partir daí me apaixonei pelo mágico, instigante e engajado universo fotográfico.

 

P: E a sua formação como fotógrafo?

R: Eu sempre quis alcançar o que esses caras realizaram, por isso me matriculei no curso de fotografia do Senac, e, coincidentemente, quando terminei o curso, surgiu a oportunidade na Escola de Fotógrafos Populares. Foi assim que eu participei da primeira turma, em 2004.

 

P: O que mais lhe interessa na hora de fotografar?

R: Tenho uma preocupação muito grande com a questão da memória, quero documentar de forma sincera, sensível e engajada os espaços populares, arrebatar o olhar estigmatizado da grande imprensa, contrapor o senso comum e demonstrar a verdadeira violência, a violência da ausência, do esquecimento, do preconceito, dos rótulos. Por exemplo: só há dois colégios com Ensino Médio para 132 mil habitantes da Maré. Como não retratar isso?

 

P: De que maneira as pessoas veem o seu trabalho?

R: Algumas não entendem, fazem vista grossa, dizem que a gente faz papel de menino chorão que reclama de uma situação que está em qualquer lugar do Rio de Janeiro, mas não é bem assim. A violência que existe na favela é física, psicológica e social. É sanguinária. Por isso, eu acho que a fotografia tem sim que servir como suporte de denúncia, e a atuação de fotógrafos populares é essencial para a construção do olhar de quem realmente vive o cotidiano das comunidades.

 

 




* Sebastião Salgado é fotógrafo, brasileiro, conhecido mundialmente por seus trabalhos engajados; João Roberto Ripper é fundador da agência fotográfica Imagens do Povo, sediada no Complexo da Maré.


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