Quando o conhecimento popular sobre ciências for à escola

29/12/2009

Por Verônica Barbosa Ribeiro

“Situação nociva e perversa seria esta de uma sociedade em que pessoas relativamente desprovidas das benesses da natureza fossem, quanto à capacidade intelectual, geralmente superiores aos que, socialmente, estão acima delas.” Lord Wrottesley (Inglaterra)

Alguma vez  você que cozinha  já salgou de mais o ensopado? Faço esta pergunta porque se alguma vez na vida salgamos o ensopado colocamos batatas nele.  Por que a batata? Porque além dela ser saborosa e muito apreciada, ela também ajuda a reter o sal. Não é verdade?

Para pensarmos um pouco mais nesta  nossa experiência levantarei a seguinte questão:  como a batata retém o sal e deixa a nossa comida menos salgada do que estava antes?  Não sei responder a esta pergunta, mas peço uma reflexão: com quem você aprendeu  isto? Com certeza a resposta vai ser: com a minha mãe ou algo familiar. Mas a sua mãe aprendeu isto aonde e com quem? Na escola? Com certeza não foi na escola.

Como isto acontece? Como este composto iônico, que é o sal, pode ter uma parte de si retida em outro elemento com vários componentes químicos? Não sabemos, mas será que a escola sabe isto, já que ela passa aos seus alunos parte do conhecimento  científico produzido (pelos cientistas, acadêmicos)  e nem sempre experimentado (pelos alunos)  sobre ciências?

Não sabemos responder muitas destas perguntas, porque infelizmente a escola, nova ou velha, não nos deu instrumentos e nem motivações para que aguçássemos a nossa curiosidade  sobre o que está a nossa volta e sobre nós mesmos. Não nos ensinaram a solucionar problemas e nem  a criá-los para podermos resolvê-los.

A  sociedade, em que vivemos, não tem muito  interesse na melhoria da ensino escolar na sua totalidade, a escola persiste com a sua tradição cruel e desigual para com aqueles que tem muita coisa a nos ensinar e ninguém para ouvir  e experimentar o seu conhecimento. Esta nossa situação, hoje, é fruta  já amadurecida da escola ocidental.

Quando  o conhecimento popular sobre ciências for à escola, todos serão alunos e todos serão professores, pois todos nós tempos algo a passar para os outros  e para apre(e)nder dos outros também. Os muros da escola serão rompidos e não existirá mais barreiras, e assim poderemos, realmente,  fazer o uso devido dos direitos que a instituição escolar  nos oferece em todas as suas instâncias.

“Viver sem  história é aceitar, na maré da evolução humana, o papel anônimo de plâncton ou de protozoário. É ser uma ruína, ou trazer consigo as raízes de outros. É renunciar a possibilidade de ser raiz para outros que vêm depois.”  (Joseph Ki-Zerbo)

*Ciência: 1. Conjunto metódico de conhecimentos obtidos mediante a observação e a experiência. 2. Saber e habilidade  que se adquire para o bom desempenho de certas atividades. 3. Informação, conhecimento, notícia. 4. Ciências biológicas. As que estudam os seres vivos. Ciências exatas. Aquelas (como a física, a química, a astronomia) que descrevem e analisam segundo uma lógica a natureza, a relação do homem com o ambiente que vive e o universo. Ciências naturais. Aquelas (como a biologia, a botânica, a zoologia, a mineralogia, etc.) que têm como objeto o estudo da natureza. Existem outras ciências, como as Ciências humanas, etc.


Saberes Populares e Saberes Científicos: Uma mistura que dá certo.

11/12/2009

Por Elisabeth Hanauer.

Qual dessas receitas contra dor de barriga você usaria? Antes de responder a essa questão, pensemos um pouco sobre a origem de ambas.

Há muito tempo o binômio saberes populares/saberes acadêmicos se cruzam, seja para produzir um resultado, seja para se confrontarem e ver “quem tem razão”. Esse movimento de fluxo e refluxo de informações acaba sendo benéfico para todos, uma vez que refina-se o conhecimento, aumenta o valor agregado, desenvolve tecnologia, gera emprego e renda, e valoriza-se o currículo oculto de diversas comunidades.

Porém, a exaltação dos saberes populares como patrimônio cultural e ponto de partida para pesquisas científicas nem sempre foi valorizada. Ao contrário, há bastante tempo ocorreu (e ainda ocorre em diversos lugares, principalmente nas periferia e semi-periferia mundiais) a expropriação de todo um conteúdo passado de geração em geração. Diversas comunidades foram largamente afanadas em sua cultura; cultura esta que, após ser lapidada, recebia outra alcunha, tinha outro dono. Isso ocorria, em parte, porque não era admissível pelos detentores do capital, dos elaboradores de compêndios, que “pés descalços”  detivessem mais conhecimento sobre diversos aspectos (alimentação, arquitetura, botânica, etc.) que tão eruditos indivíduos.

Logo, esses “personagens da história popular” sofriam com o fato de que se reconhecia as criações populares, mas não as pessoas que as criavam. A consequência disso foi a desterritorialização dos patrimônios culturais.

Entretanto, com a recente ciência de que a hibridação cultural é necessária e inevitável, governos e atores não-estatais cada vez mais têm dirigido seus esforços para a revalorização do território e reconstrução de práticas e saberes tradicionais. Vê-se, com iniciativas como as do CNPQ, UNESCO, empresas privadas (como a Sangari Brasil), entre outros, a “refundação dos territórios tradicionais e à produção de ‘autenticidades’ culturais, delimitadas espacial e simbolicamente” (Giddens, 2001).

Não que iniciativas como essas irão resolver os problemas de exclusão, mas se tornam um grande passo na luta pela desmistificação das culturas científicas e para formalizar as culturas tradicionais.

No que isso resulta? Por um lado, as instituições externas, que representam a modernidade, precisam da tradição comunitária para viabilizar seus projetos e para gerar novos recursos vinculados ao patrimônio material e imaterial. Resultado: inovação e agregação do produto em commodities.

Por outro lado, a comunidade, que representa a tradição, precisa das instituições externas, para projetar seu valor, tanto no sentido simbólico quanto no material. Resultado: uso da perspectiva da perda (e não da ausência), como horizonte para ações de reconstrução.

Sendo assim, se tomarmos por base que “o mundo é socialmente construído”(R.Cox, 1993), no qual somos os principais protagonistas , e que é produto de nossas escolhas, temos a opção de que podemos mudá-lo, transformá-lo,  igualá-lo. E uma dessas formas é por meio da revalorização do território, indo do micro para o macro, e vice-versa. Ou seja, trazer a comunidade para o mundo, e levar “o mundo” para a comunidade.

E, para finalizar, em relação às duas receitas do início desse texto, ainda acha que há alguma diferença?


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